Frase

"A noção do dever bem cumprido,ainda que todos os homens permaneçam contra nós, é uma luz firme para o dia e abençoado
travesseiro para a noite."
(Os Mensageiros)


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segunda-feira, 31 de maio de 2010

A mãe sou eu, droga!

A educação é uma condição muito apreciável. Mas às vezes, e só às
vezes, chega a ser quase uma desvantagem.

Uma de minhas principais dificuldades quando tive o Estêvão, foi
achar um pediatra que não me tratasse como uma idiota.
Sabe como é: pedir ajuda da secretária para tirar a roupa do bebê, mesmo
que você se prontifique a fazê-lo, pedir para você segurá-lo colocando a
sua "mãozinha" não sei aonde.
Eu fervia e acabava chorando, humilhada, depois que saía do
consultório. Eu sou cega, mas não sou uma idiota! Dá pra me dar a chance
de mostrar isso?
Mesmo quando eu encontrei uma pessoa que era apenas cuidadosa e não
preconceituosa, quando um dia eu fui com um acompanhante vidente, ela
simplesmente passou a tratar como se o acompanhante fosse a mãe dos meus
filhos.
Então é isso: todas as vezes que eu vou com um acompanhante que
enxerga, ele é automaticamente promovido a mãe dos meus filhos.
Conclusão? Eu faço questão de ir sempre sozinha, mesmo que um
acompanhante às vezes seja legal, para uma questão de logística.
Tá, eu sei... Eu deveria ter uma postura consciente e superior.
Deveria impor meu papel ou não me importar, afinal, não muda nada um
médico tratar outro como responsável pelos meus filhos por dez minutos,
se a mãe sou eu, de fato e de direito. Mas a minha parte imatura e
imediatista ferve com esse tipo de postura. Talvez, um dia, eu esteja
furiosa o suficiente para olhar bem na cara do cristão e dizer: a mãe sou
eu, droga!

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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Cegueira e maternidade - o que muda?

Já é a quarta pessoa que sugere que escreva sobre cegueira e
maternidade, aqui no blog. Normalmente perguntam sobre adaptações,
situações específicas...
Eu hesitei bastante, porque já esgotei muito o assunto quando
escrevia o finado Carmencita Veras
www.carmencitaveras.ohlog.com
mas, vamos lá.

Também pela cegueira mas não só por ela, fazemos muita coisa juntos,
Vi e eu. Isso não mudou muito com a chegada da Mariles. Muitas vezes
alternamos, ou ficamos os quatro juntos, com cada um mais focado em uma
das crianças. Não sei, isso tudo flui naturalmente. Não é nada sobre o
qual precisemos sentar e traçar estratégias de ação, ou alguma coisa
parecida.
Nós apenas tentamos e tentamos e tentamos, até encontrar um
resultado aceitável.
Foi assim com o da comida: mil adaptações até encontrar a fórmula do
sucesso, ao menos, do nosso sucesso.
Agora, durante os finais de semana, agradecemos quando Mariles dorme
perto da hora do almoço. Então alimentamos o Estêvão e nos alimentamos,
mais ou menos ao mesmo tempo. Então Mariles acorda c começa o
"diferente":
- Kevo, aonde você quer ficar trancado agora?
Ele pode escolher entre a sala de televisão e a sala do computador;
pode levar o que quiser para o "exílio", e sempre vai de boa vontade.
Foi o único jeito que encontramos de ele não a distrair o tempo
todo, durante a refeição. Era inviável. Ela ficava sempre olhando para
ele, e entre caras e bocas e saramaleques, acabava ficando sem comer.
Então, Kevo vai ao seu "exílio temporário" e nós colocamos Mariles
na cadeirinha. Eu e envolvo com aqueles fraldões e o Vi fica entre a
cadeira e a parede, vigiando as mãozinhas dela. Eu preparo a comida e
ofereço, colocando a colher em uma das mãos, a outra apoiando a parte
côncava com alguns dedos para fora (meus) para encontrar a boquinha
dela.
Era assim desde o Estêvão, com o diferencial de que ninguém
precisava ser exilado para o processo.
Mas essa é a única tarefa que, tendo para quem eu delegar, faço-o
com gratidão.


****


Diz que disseram para o Kevo, na escola, que seus pais não
enxergavam. Ele então atalhou de imediato: Não tem problema! Eu enxergo,
a Maliles enxerga...

***

Quase um ano atrás, foi tempo de concretizar os fatos:
- Mamãe, a senhora não enxerga?
- Não.
- O papai não enxerga?
- Não.
- Mas eu enxergo!
- Enxerga.
- A Mariles vai enxergar?
- Muito, muito provavelmente, sim.

***

Teve até quem sugerisse que nós colocássemos sensores nos cômodos,
para que uma luz se acendesse quando o EstÊvão entrasse, graças a
nossa quase patológica mania de não acender a luz de noite -
especialmente eu.,
Bobagem. Nunca fizemos nada nesse sentido, e o Kevo sempre pedia par
acender a luz e, desde que foi capaz, é expert em acender a luz ao
entrar e em apagar, ao sair. Tudo naturalmente.


****

Eu não acho das coisas mais difíceis que fiz, embora seja, sem
dúvida, a mais gratificante; uma vez ouvi em um
filme que ser mãe era como amarrar os sapatos, e foi assim comigo
também. As coisas simplesmente fluem. Basta estar-se aberto, ter
disposição para pagar para ver e para enfrentar os problemas de frente.
Não acho minha vida mais complicada que a da maior parte das
pessoas; igualmente não me acho nada superior a qualquer outro por
fazer o que faço. Eu simplesmente tenho a vida que quis com as
ferramentas que estavam ao meu alcance. As facilidades que me faltam em
alguns campos, a outros faltam em demais quesitos, e mesmo que assim não
fosse, cada experiência humana é única.
A minha vida, como a de qualquer pessoa no mundo, é repleta de
esforço, aposta, frustrações, vitória e superação. Só isso.

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domingo, 21 de março de 2010

As realizações da cegueira

Muitas pessoas pensam que ser cego significa ser privado de fazer
as coisas. Eu discordo. Potencialmente, ser cego significa ser
"condenado" a encontrar um outro jeito de fazer as coisas.
As pessoas que enxergam olham para nós e imaginam-se sem ver,
realizando as atividades que fazem do mesmo jeito que as realizam
enxergando. E pela sua
dificuldade em se imaginarem em uma situação que jamais experimentaram,
deduzem que nós temos a mesma limitação imaginativa deles. Nós não precisamos
imaginar, porque
vivemos isso. Entretanto, não precisamos deixar de sonhar, realizar
e viver; apenas fazemos de uma forma diferente, que para os outros até
pode parecer mais penosa, mais difícil, mas que, para nós, é tão natural
quanto é para os normovisuais realizarem do modo como as realizam.
Enfim, uma simples questão de ponto de vista.
Anos atrás tive uma experiência muito inspiradora para mim: eu
sempre soube escrever com letras de forma e, então, estava aprendendo as
letras cursivas. Eu me senti confusa com tantas curvas e entrelaçados,
quando passava a mão nas letras feitas com cordoamentos e pensava: meu
Deus, como as pessoas conseguem escrever desse jeito? Braille é tão mais
fácil!
Hoje fala-se muito em inclusão, em diferenças e diferentes; para mim
tudo é apenas uma questão de aposta no ser humano e dar-lhe o direito
de descobrir seus limites reais, não o da imaginação das outras pessoas.
"A árvore, aonde dá? Se você a cortar, nunca saberá".

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