Frase

"A noção do dever bem cumprido,ainda que todos os homens permaneçam contra nós, é uma luz firme para o dia e abençoado
travesseiro para a noite."
(Os Mensageiros)


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terça-feira, 23 de junho de 2009

Carta de uma Parteira


A queridíssima Ana Cris Duarte, lá do









GAMA
foi convidada ao
Mamíferas
e postou a
carta
que segue abaixo.


   Lindíssima é pouco.....




Carta de uma parteira






por: Ana Cristina Duarte (Mamífera convidada)


Não faz tantos dias que você foi buscar o exame no laboratório (ou
segurou o bastão de exame caseiro nas mãos) e sentiu como se o seu
coração parasse. Positivo. Grávida. Mãe. Mãe?!? E de parado, seu coração
resolveu palpitar ao ritmo da sua adrenalina, fazendo que ia sair pela
boca. Positivo. Grávida. Mãe.
- Alô, Mãe? Você não vai acreditar!
- Alô, Querido? Você não vai acreditar!


Bem, se nem mesmo você acreditava, como fazer os outros acreditarem? E
assim, na dúvida se chorar ou rir, sentido o chão se abrir sob os seus
pés, você percebeu que sua vida ia mudar para sempre. Mal sabia você a
dimensão dessas mudanças. A cada centímetro de barriga avançando,
metros, quilos e litros de mudanças na sua vida. O corpo vai se
amoldando, o sangue enriquece, a mente voa, o coração sente, tudo para
que esse novo ser chegue ao mundo em segurança.


Seus ligamentos estão mais flexíveis, você está mais lenta no raciocínio
lógico e mais rápida nos sentimentos. Você percebe coisas no ar, mas é
incapaz de uma simples conta. Tudo para a chegada desse bebê. Seus
hormônios encharcam seus músculos, que ficam mais suaves, as formas se
arredondam, as glândulas se preparam para produzir prolactina, leite,
ocitocina, aproxima-se o grande momento.


A barriga está pesada, vai à frente anunciando a chegada da criança. Os
dias são mais difíceis, mais longos e tudo te leva a aguardar ainda mais
ansiosa a chegada do seu filho. A magia do nascimento. O mistério da
vida. Seu bebê fez tudo o que deveria fazer, desenvolveu-se
adequadamente e esperou calmamente o dia de conhecer o outro lado. Você
está ansiosa, mas respeita o tempo de seu filho. Você já sabe que é ele
quem decide quando está pronto para vir. Seus pulmões, quando ficam
maduros, começam a liberar uma substância que é quase um bilhete ao seu
corpo: "Mamãe, estou pronto, quero ir aos seus braços, me espere, estou
chegando".


Um dos maiores mistérios, esse de pensar quando será o dia do parto, o
dia da chegada do filho já tão querido. Ele nos dá a dimensão do que é
ser mãe: estar preparada para amar nosso filho independente de suas
decisões. Se ele quer vir no dia do Natal, ou no aniversário do tio, ou
se resolver demorar mais dez dias, você vai amá-lo igual. Quando ele
virá? Como ele virá? Seu corpo já entendeu o recado, seus pulmõezinhos
estão prontos, os hormônios são produzidos e finalmente você sente que
alguma coisa está acontecendo eu seu corpo.


Pouco a pouco seu corpo começa a funcionar sozinho, quando menos você
pensa, melhor ele trabalha. Cada molécula, cada célula está trabalhando
e permitindo que esse maravilhoso milagre aconteça. Basta que você tenha
um profissional que te transmita confiança, um ambiente adequado e seu
corpo vai se transformar num espetáculo da natureza. Cada onda vai
abraçar seu filho, que com coragem e determinação vai avançando
milímetro por milímetro. Cada célula do seu corpo, que foi desenhada
pela natureza para atravessar com segurança esse lindo evento, vai
facilitar a passagem de seu filho. Juntos vocês dançarão o seu mais
importante balé.


A cada milímetro dessa jornada, seu filho vai amadurecendo e se
preparando para a aventura de viver fora do seu ventre. Cada onda é um
abraço, cada força traz coragem. Cada milímetro avançado faz com que seu
pequeno corpo se prepare para os desafios dessa nova vida: regular a
temperatura, respirar, digerir, chorar, comunicar, luz, sons. Ele só tem
uma referência, o útero que o protege e nesse momento ele sabe e sente:
sua mãe está fazendo a parte dela. Sua mãe o esperou! Ela sabe o que é
certo. Ele confia em você. Confie nele.


Mais alguns minutos, as últimas forças, os últimos milímetros e você
sentirá seu corpinho deslizando suavemente através do seu, e no final
aquela sensação maravilhosa de vitória que ambos obtiveram após todo o
esforço. Você conseguiu! Ele conseguiu!


- Bem-vindo meu filho, te esperei tanto, te quis tanto, que saudades de
você. Venha para os meus braços, venha para o meu seio. Eu te aquecerei,
te protegerei, e para sempre te amarei. Você foi forte e corajoso e eu
já me orgulho de você!


Sinta o calor desse pequeno grande corpinho sobre o seu, pele com pele.
Sinta seu cheiro, veja como ele te procura com os olhinhos curiosos. Ele
se acalma no seu corpo, seu calor traz tranquilidade e uma inconfundível
sensação de paz e de amor. Permita a vocês dois essa linda aventura! Ela
é o portal de entrada nessa experiência maravilhosa: Ser Mãe.

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sexta-feira, 24 de abril de 2009

Agradeço a Deus todos os problemas

Eu não sabia que parir era tão dfícil. Que a própria escolha de
abraçar uma forma alternativa de nascer me obrigaria a renascer de
tantas formas deliciosas, ardentes e dolorosas. Eu não sabia que ao
abraçar uma escolha poder-se-ia arcar com tanta responsabilidade, tanta
força, tanta dor e tanta solidão, e ainda assim, saber que, se houvesse
volta atrás, eu não voltaria, independendo das conceqüências.
Eu não sabia que parir podia ser assim, tao intenso, tão lindo, tão
revolucionário, tão terno e tão sutil.
Eu não sabia que tinha tanta força para sobreviver ao meu próprio
espanto e medo e pavor, que seria obrigada a encarar meus porões mais
escuros antes mesmo da primeira contração e ainda assim estar viva e
inteira a ponto de brincar com meu filho.
Eu não sabia que eu era assim. Eu não sabia de nada disso. Eu não
sabia quem eu era até isso tudo começar. Eu não sei de nada.
Só posso agradecer, enfim, a Deus, por todos os problemas, por esses
meses de insônia, por esse equilíbrio enquanto desço por esse
precipício, por esse auto de fé, por esse turbilhão de amor, por essas
marcas de dor, por essa coragem que nem sei mais.

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terça-feira, 21 de abril de 2009

Reflexões sobre a maternidade

A maternidade é um evento que te revoluciona,
que te leva, de revolução em revolução, a ser uma pessoa melhor, mais
intensa, mais amorosa. E o amor pelo teu filho, pela tua família, chega
a um ponto em que extrapola e se converte em uma espécie de cumplicidade
e comprometimento com cada vez mais pessoas, até se converter em uma
onda terna e ativa de respeito por todos os seres do planeta.
Quando você gera, então você entra em conexão com o mundo, a terra,
as plantas, os bichos, seus antepassados, a vizinha que também pariu, a
anônima que quer engravidar e não consegue.
E então você tem uma piedade ardente e absurda daquela que quer amar
mas não sabe como, daquela criança cuja mãe é uma maluca consumista,
daquela mãe que está com os braços vazios.
É uma loucura, Fernanda, e a gravidez, bem como os primeiros anos de
um bebê, te jogam nesse turbilhão, e te fazem consciente de uma
realidade muito além dos murinhos invisíveis da tua vida particular. E
não tem como viver isso e se sentir como se nada tivesse acontecendo,
ver tudo como era antes. Teu corpo muda, tua própria vivência e
percepção do feminino em você e nas outras mulheres muda, tua visão do
marido muda... Ou ele pula fora, ou vocês entram numa comunhão para além
de qualquer coisa que hajam experimentado antes...
E tudo isso é lindo, é pleno, mas é exigente. Desde o trabalho de
parto do Estêvão, sinto como se meu ser tivesse se aberto a uma
realidade diferente, cheia de aspectos negativos que eu não conhecia,
mas de uma delicadeza e uma profundidade que me fazem sentir tão
minúscula, tão insignificante, e, a um só tempo, tão poderosa! E a
gravidez da Mariles, de certa forma, ampliou esse ciclo, ampliou minhas
objetivas de percepção, e isso simplesmente me consome demais! De
repente 24 horas é muito tempo para esperar que finde mais um dia para
que eu tenha uma semana a menos de espera por minha filha... Paradoxalmente, 24 horas é
tempo demais para pensar em tudo que eu preciso pensar, para amar tudo
que eu preciso amar, para dar a eles toda atenção que eles precisam e
para ler tanta coisa que tá sendo reescrita dentro de mim.
A maternidade, cada pequeno evento da vida do meu filho, cada
pequena dificuldade, cada vitória, cada tropeço, cada hora de alegria
partilhada, tudo isso faz cair trinta mil fichas na minha cabeça, e eu
simplesmente não consigo, no meio de tudo isso, por exemplo, sentar e
ver uma novela, ler um romance ou qualquer coisa assim.
De repente meu mundo é tão grande, que não cabe em mim, e eu ignoro
tanta coisa, que simplesmente é imperdoável que eu me distraia, antes de
pelo menos molhar os pés na sabedoria da qual minh'alma tem cede.

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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Felicidade realista?

Acho que encontrei uma boa definição de felicidade:
felicidade é quando tudo pode não estar bem, mas você está bem.
Não gosto muito de entradas nesse estilo, mas lá vai:
hoje o dia não teve nada de bom. Kevo doente, febril, choriando o dia
inteirinho, entre dormidas e dificuldades de alimentação
e expectoração de catarro. Eu com a barriga dolorida,
vomitando umas seis vezes, com começo de gripe, febril, uma dor de
cabeça persistente, praticamente me arrastando pra cuidar do Kevo o dia
inteiro entre uma vomitada minha e outra. Marido se agüentando como
podia, gripado e febril também, e eu na santa paz, quase zém, pensando
em como eu sou feliz por ter o marido e o filho que eu tenho... E ainda
vem a Misilex por aí!
Definitivamente, felicidade deve ser isso.

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sexta-feira, 13 de março de 2009

Águas de parir

Como pode umas águas que estão longe te arrastarem assim?
Você olha, você sente, pergunta-se por quais caminhos elas te levam, mas não sabe
Não vê
E isso, em certa medida
Simplesmente não importa!

Águas de parir
Águas de gerar
Gerar filho e gestar mãe
Pra depois explodir em cataratas de intensidade
Te arrastando aonde você nem sabe
Mas nem adianta perguntar
Nem vontade de resistir dá.

Águas de parir
Que te constrangem a seguir
E você deixa de ter escolha
Exceto a única escolha
De simplesmente parir.

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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Ousadia sem limites

Meu mundo caiu quando eu soube que seria mãe de menina. Descobrir a
gênese desse pavor quase me submergiu, ao tempo em que tentava lidar com
mais uma gravidez exigente e com a tarefa de não prejudicar o andamento
das coisas ao meu redor com as minhas introspecções. A verdade é que é
mais ou menos óbvia a violência imposta aos meninos em nossa sociedade,
e é, portanto, mais fácil preservá-los dela. Dizer "não" aos brinquedos
que estimulem a agressividade, aos filmes violentistas, às ideologias
que não resistem a qualquer argumentação mais viril de que um homem não
pode ser sensível e ser masculino. Dizer "não" a exaltação da força
bruta sobre os valores éticos, às vantagens do grito sobre o diálogo.
Entretanto, no universo feminino tudo é muito mais sutil e pernicioso: o
violento é doce; a agressão é sutil, multifacetada, com cara de
liberdade, modernidade e tons de rosa. Os protótipos de beleza são
cadeias que limitam e aprisionam; a moda são regras que despem-nos da
originalidade e do direito de sermos únicas; a liberdade sexual é um
conceito que, no final das contas, rebaixa-nos a materiais
pornográficos; os brinquedos não incitam à violência direta, mas
engessam nossos raciocínios em posturas que nos condenam ao papel de
repetidoras, não de pensadoras, portanto sempre coadjuvantes, não
escritoras de nossos próprio destino. Entre tanta atenção reservada a
ser popular, bonita e moderna, sobra pouco espaço para a descoberta de
nosso próprio eu, da nossa própria feminilidade e de nossas próprias
preferências. Somos treinadas para sermos massa, não para sermos
autônomas e responsáveis. E o preço cobrado pela ousadia de ser
diferente muitas vezes é mais caro para as meninas que para os meninos.
No universo masculino, tudo é mais ou menos óbvio: o brinquedo atira,
bater é evidente. Você o ensina a desvalorizar a mulher se o manda
engolir o choro porque é "coisa de bichinha" (ensina-o a desvalorizar a
mulher e a negar os próprios sentimentos, de uma vez só); no universo
feminino, não. Tudo é mais indireto, delicado e, talvez por isso, mais
daninho. O belo nem sempre é seguro e os contornos perdem mais
facilmente a justa dimensão. Penso nesse serzinho que cresce dentro de
mim dia após dia. Passei do susto ao medo, do medo à pena e da pena à
ação: eis o que pretendo dizer a minha filha de diferentes formas, desde
o dia do seu nascimento até o de minha morte: Seja ousada, minha filha.
Ousadia sem limite. Que você seja mulher bastante para aceitar como
únicas bússolas um sistema concreto de ética, o amor e o respeito a si
mesma e a toda e qualquer coisa viva que tenha diante dos olhos. Fazendo
assim vai sofrer? Ah, sim, sem dúvida. Mas ao menos terá o orgulho de
dizer que sofreu por aquilo em que acreditava. No mais, meu amor, ouse.
Ouse sem limites. OUse entrar dentro de si mesma e descobrir seus
próprios sonhos! Ouse abrir mão de "tudo", para viver o essencial. Ouse
sofrer com qualidade e amar com valentia. OUse escolher quando, como e
com quem ter relações, e ouse fazer amor no sentido mais ousado da
expressão, que é o de construir e reconstruir o sentimento na ternura e
na fogueira do dia-a-dia. Nesse mundo em que a violência veste os trajes
da modernidade e em que a ética é rebaixada a posição mais subalterna,
tenha a coragem de mostrar que amar é mais que urgente e que a lucidez
da mente compensa qualquer espécie de preço. Ouse descobrir que a paz de
consciência é mais importante que qualquer aprovação externa e que o
amor que flui de dentro para fora não conhece regras nem limites, exceto
os ditados pelas estrelas. OUse olhar as estrelas, colocar flores nos
cabelos, lambusar-se de terra, ter força na fraqueza e doçura em plena
luta. Ouse investir na beleza indiscutível - aquela que flui de dentro
para fora e que se impõe porque contagia. Ouse ser a melhor pessoa que
você puder ser, dia após dia, minuto a minuto, sem se importar se os
outros estão percebendo sua performance. Ouse ter a aceitação como uma
dádiva, não como uma condição para amar realmente e fazer o que precisar
ser feito. Só assim, meu amor, você penetrará verdadeiramente no vulcão
e na doçura se ser mulher.

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Formas alternativas de dizer "não"

No começo, 7, 8 meses do Kevo, eu era bem tradicional, do tipo não é não
e só mexe no que eu quiser. Só que, primeiro, a relação ficou muito
tensa. Eu não era mais mãe dele, eu era sargenta de um regimento com um
único soldado, e pior! Um soldado indisciplinado! Pior ainda: quanto
mais ele me "desobedecia", mais eu me sentia uma mãe incompetente e mais
eu queria "provar minha autoridade" (leia-se poder ditatorial), para me
convencer de que eu era uma "boa mãe", pois era capaz de fazer meu filho
de 7 meses me obedecer. Aí teve um dia que eu parei pensando naquela
frase "comece do jeito que deseja manter" e, de boa, eu não queria
aquilo para minha relação com meus filhos! O que eu ia conseguir era
entrar em uma queda de braço com ele através dos anos, perdendo, assim,
muitas janelas de interação e, o pior!!! Afastando-o de mim
emocionalmente ! , Eu não quero isso. Sempre que eu pensava em um filho,
pensava em uma relação amorosa e intensa, em uma relação de confiança e
respeito, de cumplicidade e crescimento mútuo, não naquela guerra de
nervos infernal. Não me divertia nem um pingo e o meu filho, que fora um
bebê calmo até ali, estava se tornando uma criança irritadiça e
histérica. As pessoas diziam que "era normal que ele mudasse tanto", mas
eu sentia que aquilo era resultante do nosso relacionamento. Se eu me
sentia incomodada, imagina ele? Então eu me toquei de um monte de
coisas. A autoridade não é um posto, é uma construção. Um papel em que
você mais serve que é servido e mais dá que recebe. Ele não vai deixar
de fazer o que quer porque eu disse que não, e isso não é
desobediência!! É sinal de que meu filho é um indivíduo e que quer
preservar isso! É sinal de que ele tem suas próprias opiniões sobre as
coisas e pretende ser respeitado por isso e lutar por esse direito. E
como eu não o entenderia, afinal, se eu também sou assim e se gosto de
mim sendo assim? Quer me fazer fazer uma coisa? Diga que eu sou incapaz
. Eu posso nem ter tanta vontade, mas faço só de birra. Quer me fazer
subir nas tamancas? Tente mandar em mim, insultando minha inteligência e
minha liberdade simplesmente pelo esforço da sua vontade. O meu filho
era como eu, e eu estava incomodada com isso? Hipocrisia, não? Só que
nesse ponto eu parei. Não tenho a menor vontade de ser permissiva. Sou
chata, chatíssima, e amo a educação, a discipllina, aquelas crianças
educadinhas que dificilmente matam a gente de vergonha. E, sim, eu
queria ser respeitada pelo meu filho, naturalmente. Aí eu tive que
repensar tudo. Se o que eu quero é legítimo, o errado não são meus fins,
mas meus meios. Eu queria o certo, ao menos do meu ponto de vista, mas
estava indo pelo caminho errado. Aí eu aboli do processo educativo aqui
em casa tudo que eu achava que ia contra as bases elementares do
respeito. Meu critério foi simples: não vou usar com meu filho tudo que
eu sei que não funciona comigo. Está bem, ele não é *como eu*, mas gosta
de respeito e tem inteligência. Então eu lembrei de quando eu era
criança, e de todos que tentaram me educar e cortei tudo que via que me
incomodava na época e não resultava, e tudo que me incomoda até hoje:
castigo, agressão física, rotulação, grito e sermão em público. E botei
como meta tudo que fazia e faz até hoje efeito em mim: eu gosto de ser
tratada com respeito e dignidade; gosto que minha inteligência não seja
ofendida e não gosto que me limitem sem que eu tenha podido tentar. Se
alguém acha que eu estou errada, converse comigo; Se quer mudar minha
opinião, ofereça-me a sua, como quem dá um presente, não como quem joga
um tijolo na minha cabeça! É é assim que eu to fazendo, até hoje. Se dá
trabalho? Caramba, um trabalhão!!!! Eu passo, das quatro da manhã às
sete e meia da noite com ele, conversando, falando, explicando,
abraçando, estimulando, afirmando, sugerindo, valorizando ou
desvalorizando... O dia inteiro, de domingo à domingo. Mas somos
companheiros nisso tudo e sei que ele me vê como alguém a quem respeita
e em quem confia, não como apenas "a chata" e a que não deixa ele fazer
as coisas. Se ele está seguro em uma atividade, eu me afasto para que
ele tenha espaço, mas frizo que estou disponível (se precisar da mamãe,
é só chamar) . Se ele me quer por perto, apenas me pega pela mão e eu
fico disponível o tempo que for. No começo eu me preocupava que ele
conseguisse ficar minutos e minutos sem mim; agora aceitei
emocionalmente o fato de que ele é a prioridade e que conseguir ficar
sem ele não é fundamental. Coincidentemente, ele passou a me solicitar
menos depois disso. Tudo isso com muito riso, muita brincadeira,
muiiiiiito toque físico, muita diversão e muito respeito, também. Com
esse processo, os meus "nãos" diminuíram drasticamente e, por isso,
passaram a ter muitíssimo mais valor. O povo se impressiona porque ele
me "obedece", mas o ponto é simples: ele não me obedece porque eu não
mando! Dá pra entender a doideira? Eu falo firme, converso, explico, mas
nunca nada como "vocÊ vai fazer isso e pronto!" ou "eu estou mandando e
ponto final! Não é não", porque, se eu fizer isso, ele vai se sentir
ameaçado e só vai pensar em se defender e nem vai se fixar no que eu
estou dizendo. Eu não o obrigo a fazer as coisas; sutilmente o conduzo,
o que é um pouco diferente. Eu saquei também que o Kevo não consegue se
fixar em mais de uma coisa subjetiva de uma vez. Se eu o confronto,
simplesmente, ele se fixa no confronto, não na causa, no conteúdo ou no
objetivo. Acho que isso ele não entende. Mas se eu vou até onde ele está
e tento conduzi-lo, ele consegue acompanhar as etapas do meu raciocínio
e mudar a disposição.

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  ©Template Blogger Writer II by Dicas Blogger.

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